quinta-feira, 12 de abril de 2018

O seu rosto imprime a vida que você teve


Certa vez um visitante foi anunciado a entrar no gabinete de Bill Clinton. Clinton disse à secretária que não o atenderia. “Mas por quê?”, perguntou ela. “Não fui com a cara dele”, respondeu. “Mas que culpa o coitado tem de ter a cara que tem?”, perguntou a secretária. “Minha filha, depois dos quarenta anos todo mundo tem culpa de ter a cara que tem”, respondeu o ex-presidente dos Estados Unidos.  

Não posso dizer com precisão quando nós, ainda pequenos, conseguimos pela primeira vez captar o rosto humano e suas expressões, talvez um psicólogo soubesse dizer com precisão. Entretanto, nosso objetivo aqui não é tratar de psicologia, regressão à infância ou coisa que o valha. Pretendemos tão somente falar sobre o rosto, imaginá-lo e refletir sobre ele.
Certo é, de que cada pessoa possui um rosto singular, com suas formas e traços. Alguns tem o rosto mais rechonchudo enquanto outros possuem um rosto mais fino por assim dizer. Uns possuem o queixo mais preponderante enquanto outros têm olhos esbugalhados. Uns rostos são mais simétricos que outros, uns são mais belos que outros (de acordo com os padrões da época).
Todavia, retirando as diferenças específicas de cada rosto particular, podemos dizer que há em todos os rostos particulares, algo de universal. Se por um lado, a particularidade de cada rosto são suas feições e traços físicos, por outro, a universalidade está na expressão das emoções, pois todo rosto é capaz de expressar alegria, tristeza, raiva, medo e etc. E, não é como no caso dos traços físicos do rosto, onde cada rosto possui seus traços particulares. Ao contrário! As emoções são expressas nos rostos particulares de maneira universal. A alegria, o medo, a surpresa são expressos de igual modo tanto no rosto de uma pessoa bela quanto no rosto de uma pessoa feia; são expressos de igual modo tanto no rosto de um brasileiro quanto no rosto de um chinês.
A expressão de surpresa, que induz o levantar das sobrancelhas e o cair do queixo é expresso de maneira universal em todos os rostos particulares.  A raiva que nos faz contrair a mandíbula, cerrando os dentes e arqueando as sobrancelhas, é igual em todos os rostos. Então, por mais que cada rosto tenha suas feições particulares, a expressão das emoções se dá em todos de forma universal.
Se fossemos tratar de utilitarismo, quer dizer, da utilidade do rosto, ou ainda, da principal função do rosto, diríamos: é a de comunicar as emoções. Todo rosto comunica uma ou mais emoções. Emoção, palavra oriunda do latim emovere que significa “mover para fora”, descolar-se. Ora, se a principal função do rosto é expressar e comunicar emoções e a palavra emoção aponta em direção a algo que está fora, que se movimenta e se lança para fora, isto significa que o rosto tem como telos, como finalidade, algo que não ele mesmo. O telos do rosto, sua finalidade, é lançar-se para fora, mover-se em direção a outrem, comunicando as emoções da pessoa em questão.
Cabe aqui um breve adendo: coisa muito difícil é simular as emoções, porque elas foram moldadas e são instintivas. São respostas instintivas. Vê-se com certa facilidade, por exemplo, quando alguém está sorrindo ou simulando sorrir ou quando alguém está surpreso. Os músculos faciais são acionados instintivamente dificultando o fingimento – ato que requer muito treino e que os atores executam com maestria.
Compreendendo isto, percebemos que o telos do rosto é mover-se para fora. O rosto salta para fora. Suas expressões e comunicação saltam para fora. O meu rosto deseja alcançar outros rostos, comunicando subjetividade a subjetividade. Minhas expressões se comunicam com a ajuda da luz e refração no olho de quem me enxerga e vice-versa. O rosto, embora meu e particular, se lança para fora e me lança para fora. Me lança para o outro. Me lança para o mundo.
Os outros “entram” em mim por meio de seus rostos e eu “entro” nos outros por meio de meu rosto. Somos igualmente lançados para fora, em busca da expressão e comunicação de nossos desejos. Um rosto desejoso de amor comunicará em suas expressões a ternura que sente, na maneira de olhar e posicionar as sobrancelhas e o queixo. Mas, se no rosto a quem se dirige, o mesmo se mostrar sisudo, tal comunicação não se efetivará e o desejo do primeiro será negado pelo segundo. Entretanto, se a resposta for recíproca, o desejo comunicado pelo primeiro terá aceitação do segundo e o desejo de ternura será satisfeito. Variações deste único exemplo poderiam ser dados aos montes, como alguém que comunica sua raiva ao morder os lábios e de como o interlocutor lhe responde, e assim por diante. Todavia, não pretendemos nos alongar sobre isto, já que as variações do rosto e sua comunicação podem ser concebidas e preenchidas pela imaginação de cada leitor.
Concluímos, portanto de que, se cada rosto se lança para fora, no outro e no mundo, cada rosto particular revela a essência da pessoa por detrás dele – sua psique, o estado de sua alma. Quando se é jovem, com a pele elástica e macia, as expressões vão e vem no rosto com facilidade e sem deixar marcas, entretanto, quanto mais velha é uma pessoa e a pele já perdeu bastante da elasticidade, as expressões que mais comunicou durante a vida ficarão marcadas afetando-lhe a feição.
Um jovem pode contrair e relaxar os músculos faciais sem que suas feições fiquem marcadas, porém, à medida que envelhece e a pele perde a elasticidade, seu rosto vai mostrando as marcas e sulcos, não apenas do tempo e idade, mas principalmente, das emoções que cultivou e comunicou durante sua vida. Uma pessoa que foi jovem e não revelava tanto assim a amargura, ao envelhecer, terá as feições amargas, resultados de anos e anos de cultivo do amargor, no exercício de contrair os músculos do rosto de maneira a expressá-lo constantemente. Ou uma pessoa que ao envelhecer, parece-se como quem está com nojo. De certo tal pessoa passou a vida sentindo nojo e contraindo os músculos faciais nessa direção, de maneira que, ao envelhecer e já com a pele viscosa e ressecada, tal expressão ficou impressa em seu rosto. Semelhantemente é a pessoa que possui uma feição serena, outra que possui uma feição triste, com as sobrancelhas arqueadas e lábios levemente caídos, e outra que expressa ternura. Tais pessoas provavelmente cultivaram e comunicaram tais sensações e sentimentos ao longo de sua vida, mas agora, já velhos, tais expressões estão impressas em seus rostos viscosos e sem tanta elasticidade para atenuá-las.
Enfim, quando se é jovem pode-se mais facilmente dissimular os estados da alma, porém ao envelhecermos, fica difícil enganar os outros sobre aquilo que verdadeiramente jaz dentro de nós. As feições ficarão marcadas com uma ou duas das emoções que comunicamos através do rosto – àquelas que comunicamos repetidas vezes e com relativa constância ao longo da vida.
Se alguém tivesse dúvidas sobre o verdadeiro caráter de um jovem rancoroso, não o terá mais quando este for velho, se a expressão de rancor lhe tiver sido gravada no rosto após anos e anos comunicando rancor através de suas feições. Se alguém tivesse dúvidas acerca de uma jovem que aparentava ser amável, terá no entanto, poucos motivos para duvidar quando esta for velha e a amabilidade tiver sido impressa em seu rosto tanto pelo tempo como por ser esse um sentimento recorrente e que expressou diversas vezes durante sua vida no contrair mesmo dos músculos faciais. O mesmo se dará com uma pessoa triste, melancólica, esperançosa e etc.
O rosto auxiliado pelo tempo trata de imprimir em si a vida que tivemos – a vida por detrás do rosto. Talvez o faça como castigo, alertando os outros acerca de quem nós somos sem que tenhamos como dissimular. Vale dizer que às vezes acontecimentos traumáticos marcam de tal modo um rosto, que mesmo sendo ele formoso, torna-se triste e cansado (como a perda de um ente querido ou um desastre). De uma forma ou outra, a vida acaba sempre sendo impressa, gravada ou simplesmente talhada no rosto do indivíduo. O rosto é, pois, uma verdadeira impressora das emoções, imprimindo em seus músculos e curvaturas, cada sulco e tônus das emoções cultivadas e vividas. E, a tinta do rosto são os próprios sulcos e rugas impressos com a ajuda do tempo. Quando somos jovens podemos nos esconder por detrás do rosto , porém, quanto mais velhos ficamos, mais a nossa alma se revela, ficando impressa em nossas feições.

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* Um outro título possível para este ensaio seria: O rosto como gravura (ou, A gravura do rosto). "Gravura" talvez fosse uma expressão mais adequado que "impressora".

A dúvida de Salomão




Salomão foi rei em Israel e foi considerado o homem mais sábio da Antiguidade[1]. Ele fez prosperar o reino e manteve a paz em suas mediações. Ao falarmos de Salomão lembramos logo do famoso episódio no qual duas mulheres puseram-se diante dele com um bebê de colo, ambas alegando a maternidade. Em uma época aonde não havia exames de DNA, Salomão agiu e julgou a causa com sabedoria, devolvendo a criança à verdadeira mãe[2].
São três os livros do Antigo Testamento atribuídos à Salomão: Cântico dos cânticos, Provérbios[3] e Eclesiastes. Diz-se que quando jovem, Salomão teria escrito o Cântico dos cânticos, poema erótico que fala do amor de um homem por sua amada[4]. Já adulto Salomão teria escrito o livro de Provérbios, aonde o rei, tendo alcançado prosperidade material, dá diversos conselhos sobre finanças, negócios, casamento e diversos outros assuntos da vida prática e cotidiana. E, finalmente, tendo alcançado a velhice, Salomão teria escrito o livro de Eclesiastes, aonde já desiludido com a vaidade da vida, a frugalidade dos prazeres e a prosperidade material, o rei destila em poucas páginas todo o seu cinismo e sua descrença[5]. Torna-se amargo, porém é justamente aí que é alçado ao patamar de homem sábio. Como ele mesmo afirma: “Porque na muita sabedoria há muito enfado; e o que aumenta em ciência aumenta em trabalho” (Eclesiastes 1:18) [6].
Salomão teve tudo o que seu coração desejou. Teve amores e concubinas, gozou de todos os prazeres que um rei pode ter, teve prosperidade material, mas ao fim, concluiu que tudo é vaidade e poeira soprada no vento. Envelheceu com o gosto amargo das desilusões da vida, da falta de sentido e explicação para as calamidades e injustiças que ocorrem debaixo do sol; e, por fim, a falta de explicação e sentido para a própria morte.
Salomão inicia o Livro de Eclesiastes com seu famoso bordão “Vaidade de vaidades! diz o pregador, vaidade de vaidades! É tudo vaidade” (Eclesiastes 1:2). E começa sua reflexão mostrando que as coisas terrestres não passam de vaidade, porque por mais que uma geração venha a substituir a outra, tudo se repete num interminável e enfadonho ciclo: o sol nasce e põe-se sempre no mesmo lugar, o vento vai para o sul e retorna para o norte, os ribeiros desaguam no mar e depois retornam ao lugar de origem; acabando por concluir que não há nada de novo, nenhuma novidade, muito embora a história passe e os anos transcorram.
No segundo capítulo, o autor conta como buscou dar sentido à vida entregando-se às riquezas e aos prazeres. Conta como se entregara ao vinho, tentando observar-se enquanto se perdia na embriaguez; fala de como construiu obras grandiosas  e jardins elegantes e frutíferos. Amontoando riquezas e gozando de tudo o que o dinheiro podia lhe proporcionar. Salomão afirma que na posteridade não haverá maior lembrança dele com toda sua grandiosidade se comparado a qualquer um ou até mesmo a um tolo em toda sua tolice. Isto porque ambos morrerão. Chega até mesmo a dizer que buscar sabedoria é perda de tempo, pois passadas duas ou três gerações ninguém mais se lembrará de tal homem sábio. O rei então amaldiçoa até mesmo o trabalho que fadiga os homens, pois ao morrer o homem que tanto trabalhou, deixará seu trabalho e os frutos como herança a outrem, que não se sabe se será sábio ou tolo para o manter e administrar.
O rei também coloca-se como alguém que observa o tempo e o investiga. Já disseram certa vez que tudo pode ser recuperado nesta vida, exceto o tempo. Salomão observa e chega a conclusão de que há um tempo para tudo debaixo do céu. E, que o homem não conhece nada e não pode descobrir os mistérios da obra de Deus. Cabe a ele apenas trabalhar e esperar o tempo de cada coisa. Alegrando-se com seu trabalho e em fazer o bem, porque ele morrerá assim como o animal, e não haverá lembrança nem de um, nem de outro.
Em seguida fala sobre os males e as tribulações da vida. Contempla a opressão e maldade que os homens praticam e louva os que já morreram e, mais que esses, aqueles que ainda nem nasceram para ver todas as monstruosidades que são praticadas na terra. Observa que o sucesso de um homem arrasta consigo a inveja de seu próximo, afirmando que
Melhor é uma mão cheia com descanso do que ambas as mãos cheias com trabalho e aflição de espírito (Eclesiastes 4, 6).
            Exalta aqueles que tem companheiro, porque estes se ajudarão mutuamente nos dias maus, e louva o jovem que é pobre e sábio em detrimento de um rei que é velho e louco.
            O capítulo quinto do livro, por sua vez, é recheado de conselhos práticos para a vida cotidiana. Sobre estes não teceremos comentários, incentivando ao leitor que pegue o texto na íntegra e se delicie.
            Salomão adverte contra o homem cheio de cobiça, dizendo que pode-se ter muito e amealhar muitos bens, sem todavia, deles gozar. Ou porque se está ocupado demais trabalhando ou porque trata-se de um homem rico e doente. Melhor seria gozar do que se tem e não ser tomado pela cobiça, diz o pregador.
Na sequencia o pregador apontará para algo muito importante: as vantagens do sofrimento, da paciência e da moderação. Para dias como os nossos, nos quais somos incentivados a evitar todo e qualquer desconforto, a sermos imediatistas e buscarmos o prazer a todo custo, o pregador (ou, professor) ensina sobre os benefícios do caminho oposto. Frisa principalmente os benefícios do sofrimento, aconselhando a nos determos sobre ele, e assim, meditar sobre a vida; a boa vida. O professor mostrará que o caminho da sabedoria não está no lugar aonde ouvem-se risos de tolos, nem na casa aonde há banquetes e festas. O caminho da sabedoria está na casa aonde há lágrimas e luto. Porque é somente ao refletirmos sobre o sofrimento e a dor, que nos tornamos pessoas melhores e de coração compassivo. Ou, em suas próprias palavras: “Melhor é a tristeza do que o riso, porque com a tristeza do rosto se faz melhor o coração” (Eclesiastes 7, 3). Como se a dor e o sofrimento presentes neste mundo fossem a argila que o sábio usa para esculpir um coração generoso e bom. Enquanto o tolo está se refastelando em festas e banquetes, o sábio está aplicado em tornar seu próprio coração mais belo e compassivo, por meio da “argila” do sofrimento e da dor que há no mundo e em sua própria vida; sofrimento e dor das quais todos nós, irremediavelmente experimentaremos em maior ou menor medida.
            De repente a sabedoria é comparada ao dinheiro; ambos protegem aquele que os possui, exceto pela diferença que a sabedoria confere vida ao sábio, enquanto o dinheiro só proporciona conforto e facilidades. Isto porque o dinheiro sem sabedoria pode ser gasto com bobagens, levando seu possuidor ao precipício, porém a sabedoria nas mãos de quem possui pouco dinheiro pode auferir-lhe vida feliz apesar da falta de dinheiro.
Salomão adverte contra a mulher sem caráter e encerra dizendo que Deus criou o homem reto, mas ele se desviou, buscando muitas invenções que o distraíram de seu propósito original e para o qual Deus o formou; qual seja: ter uma vida simples, reta e alcançar a felicidade.
Dentre tantos conselhos práticos, o professor vai e volta diversas vezes, enfatizando ora isto ora aquilo. Tudo em um tom professoral, como quem pregando admoesta e também ensina.
Finalmente, Salomão conclui seu discurso diante da assembleia reconhecendo de que o melhor da vida é comer e beber com quem se ama, trabalhar o suficiente para se manter de forma digna e honesta e alegrar-se enquanto ainda houver fôlego de vida[7]. Visto assim mais de perto, o professor que fala diante da assembleia tem ideias muito semelhantes às de Epicuro que falava da vida simples e moderada[8]. Assim ensina o Qohelet:
Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe com bom coração o teu vinho, pois já Deus se agrada das tuas obras. (...) Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias da tua vaidade; porque esta é a tua porção nesta vida, e do teu trabalho, que tu fizeste debaixo do sol. Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque na sepultura, para onde tu vais, não há obra, nem indústria, nem ciência, nem sabedoria alguma (Eclesiastes 9: 7,9,10).
E admoesta para que tenhamos disposição para sermos sempre generosos:
Lança o teu pão sobre as águas, porque depois de muitos dias o acharás. Reparte com sete, e ainda até com oito, porque não sabes que mal haverá sobre a terra (Eclesiastes 11:1-2).
Entretanto, mesmo que tenhamos sido generosos e tido uma vida honesta, isso não nos blindará contra as adversidades que poderão nos assolar. Podemos ficar enfermos de uma hora para outra, sofrer um AVC, sermos vítimas de calamidades naturais, perdermos entes queridos, dentre outras vicissitudes. Pois “tudo sucede igualmente a todos; o mesmo sucede ao justo e ao ímpio” (Eclesiastes 9, 2). E, no limite, não há explicação ou sentido para as coisas ruins que nos ocorrem; nem para as coisas ruins que sucedem às pessoas boas[9].
Salomão, a quem é atribuída a autoria do Eclesiastes estava cheio de des-esperança quando escreveu seus últimos conselhos. Porém, prossigamos nosso caminho, nossa jornada espiritual, que está longe de ser uma caminhada rumo ao desespero. Muito pelo contrário, desejamos rumar para a esperança. Prossigamos nossa peregrinação!










[1] A figura de Salomão se tornou lendária e não há base histórica dele como pai da sabedoria. O autor de Eclesiastes é chamado Qohelet, que significa pregador, ou professor.
[2] Livro de Reis 3,16-28
[3] O livro de Provérbios foi compilado depois de 500 a.C., mas trás máximas da tradição oral de 1000 a.C. 
[4] Cântico dos cânticos é o livro preferido dos místicos que interpretam-no não como sendo um poema de amor d’um homem para sua amada, mas da alma para seu Deus, seu Amado.
[5] Leia também: “Quando tudo não é o bastante”, do rabino Harold Kushner. Obra que me inspirou a escrever este capítulo e da qual retirei muitas coisas.
[6] Outras traduções usaram ao invés de “trabalho” a palavra “sofrimento”, dizendo que aquele que aumenta em conhecimento aumenta também em sofrimento. Relacionando tornar-se sábio com tornar-se sofrido e amargo.
[7] Muitos dirão que o livro de Eclesiastes conclui que há sim uma explicação e um sentido e de que o temor do Senhor é o princípio da sabedoria. Porém os estudos de teologia crítica apontam de que os últimos versos do Eclesiastes tratam-se de  um acréscimo posterior, com o objetivo de camuflar o cinismo e desespero do autor. 
[8] Muitos dizem que o autor de Eclesiastes foi um judeu helenizado, isto é, um judeu que assimilou não só a maneira grega de pensar, mas também de duvidar e questionar. Outrossim, poderíamos dizer que Qohelet é o primeiro existencialista da história.
[9] Leia também: “Quando coisas ruins acontecem à pessoas boas”, do rabino Harold Kushner.

Conselheiro Espiritual


Antes de respondermos à questão sobre “quem precisa de um conselheiro espiritual?”, precisamos dizer rapidamente o que é espiritualidade.

Espiritualidade é a esfera humana que lida com tudo aquilo que diz respeito ao espírito. A palavra “espírito” advém da língua grega, sendo um de seus significados “mente”. Espiritualidade é, portanto, a esfera da vida humana, o aspecto da vida humana que trata das questões da mente. A espiritualidade tem como função tornar a mente sadia.

Toda a vez, pois, que utilizarmos o termo “espírito” neste ensaio, devemos lembrar estarmos falando da mente e de suas faculdades.

            Todavia, existem diversas formas de lidar com a mente, isto é, com o espírito. Nas diversas tradições e caminhos propostos por cada religião, há uma maneira de compreender o que é o espírito e métodos e “remédios” específicos para curá-lo e restaurar-lhe a saúde. Existem diversas formas de espiritualidade: espiritualidade cristã, espiritualidade mulçumana, espiritualidade hindu, espiritualidade budista, taoista, indígena, dentre tantas mais. Há também uma espiritualidade atéia e uma espiritualidade autônoma. Isto porque a espiritualidade não está circunscrita no campo das religiões, e sim, no campo mais amplo que é a vida humana e suas potencialidades. As religiões muitas vezes funcionam como gaiolas que prendem o sopro do espírito, a espiritualidade saudável e espontânea pungente em cada um de nós. Outrossim, existe até mesmo práticas espirituais que ao invés de promover a saúde do espírito, promove sua decadência. A estas Paulo apóstolo chama “hostes espirituais da maldade[1]” (Efésios 6,12).

            E, assim como existem diversas formas de espiritualidade, existem também diferentes tipos de conselheiros espirituais. Cada conselheiro conduzirá seu aprendiz por um caminho e por uma jornada. Mas o que é um conselheiro e mais especificamente, o que é conselheiro espiritual?

            Conselheiro é todo aquele que professa ou dá conselhos, admoestações e recomendações. Um conselheiro espiritual é, portanto, todo aquele que dá recomendações sobre a vida espiritual, a vida do espírito. Um conselheiro espiritual é um tutor de espiritualidade; alguém que tem como função guiar o aprendiz em direção a uma vida plena e feliz, com os pensamentos, emoções e sentimentos integrados e sadios.

Existem caminhos que pressupõem que o conselheiro espiritual deve ser santo e isento de pecado ou falhas (é assim na maior parte das religiões institucionalizadas), porém, há uns poucos caminhos que não pressupõem tal coisa. É justamente aqui que me encaixo e por isto decidi escrever este ensaio.

Eu sou cristão, como já sabem aqueles que acompanham meu trabalho. Vim de uma congregação pentecostal, mas com a proximidade dos estudos acabei afinando-me mais com os chamados reformadores. Por fim, deixei a igreja enquanto instituição, sem jamais deixar a Igreja corpo místico de Cristo, bem como não abandonei minha paixão por tudo que diz respeito à vida espiritual.

Embora hoje, os princípios da Reforma não sejam de todo atuais e muitos considerem que para o cristianismo não morrer, precisaríamos de uma nova reforma, há contudo, um princípio importante que aufere autoridade a qualquer um que deseje ser um conselheiro espiritual: é “a doutrina do sacerdócio universal de todos os crentes”, segundo a qual todos os cristãos – sejam ministros ou não – são sacerdotes, podendo pregar, batizar, ouvir confissões e aconselhar. Assim ensinava Martinho Lutero: " (…) que concedam a todos os irmãos e irmãs a faculdade livre de ouvir a confissão dos pecados ocultos, para que o pecador revele seu pecado a quem quiser, a fim de obter o perdão e o consolo, isto é, a palavra de Cristo da boca do próximo” (Do Cativeiro Babilônico da Igreja, Martin Claret, pág. 84).

Martinho ensina isto baseado nas Escrituras, conforme ensina Timóteo em sua primeira carta: "Porque há um só Deus, e um só Mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo homem" (I Timóteo 2: 5). E, como diz João no livro de Apocalipse: "E nos fez reis e sacerdotes para Deus e seu Pai; a ele glória e poder para todo sempre. Amém" (Apocalipse 1: 6).

Agora, pois, não há mais necessidade de ministros, mediadores ou  “papas”; não precisamos nem mesmo de tradição religiosa alguma, e nem mesmo da orientação da igreja. E, é inspirado na radicalidade do ensino dos reformadores sobre o sacerdócio universal de todos os crentes que eu ouso escrever aqui, como uma espécie de confessor, diretor e conselheiro espiritual. Não porque eu não tenha pecados, erros ou falhas de conduta, mas sobretudo, porque o ensino dos reformadores e as Sagradas Escrituras me autorizam, assim como autorizam a qualquer um – sejam eles santos ou pecadores inveterados.

***

Mas afinal, a quem se destina esse livro e quem precisa de um conselheiro espiritual?

Este livro destina-se a todo aquele que – seja pecador inveterado ou não – almeje crescer na vida espiritual, obtendo salvação (isto é, saúde)[2]. A todo aquele que almeje obter saúde e integralidade em seu ser, harmonizando corpo, alma e espírito. Tal como admoesta o apóstolo: "E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e o vosso espírito, e alma, e corpo, sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo" (1 Tessalonicenses 5:23).

Integralidade das emoções, com bons pensamentos e bons sentimentos. Obtendo plena saúde na mente e no corpo. Em todo o seu ser. Este livro é destinado, portanto, a quem deseje avanço na vida espiritual.

E, por outro lado, vale frisar que todos nós precisamos de um diretor espiritual. Até mesmo um diretor espiritual por vezes, irá se deparar com querelas e questões, precisando ele próprio de outro diretor e conselheiro com mais experiência que ele. Enfim, todos precisam de um mentor e de alguém que lhes aponte o caminho; alguém que já o tenha percorrido. Um jovem, por exemplo, quando vai casar-se, pede conselhos a quem é ou já foi casado, sendo este o seu mentor espiritual naquele contexto; um aprendiz de ofício busca conselhos de um profissional experiente, sendo este seu mentor espiritual; e, um velho busca alguém mais sábio que ele próprio, escolhendo para si também um mentor espiritual. Sejam os mentores religiosos ou não, que professem um credo ou não, fato é que em diversos momentos da vida, recorreremos a alguém que julgamos mais sábio ou experiente que nós, escolhendo assim, naquele contexto ou sobre aquela questão, um conselheiro espiritual.

Um conselheiro espiritual não precisa necessariamente ser um homem santo, podendo muito bem ter sido outrora, um pecador inveterado; alguém que, por muito errar e tendo fracassado em diversos aspectos da vida, tornou-se capaz de aconselhar os outros sobre os caminhos que não devem ser percorridos e a apontar caminhos melhores. Então, ao iniciar estes conselhos devo identificar-me como o diretor espiritual que percorreu o caminho errante, e que, por muito ter fracassado, aprendeu algumas lições e quis passa-las adiante, alertando para os perigos do mau caminho e indiretamente, para o bom caminho: aquele que promove integralidade e salvação (saúde).

Após esta breve introdução, desejo a você querido leitor e peregrino, que aproveite tais conselhos e que eles lhes sejam fonte de vida! 



[1] Algumas vezes utilizaremos a Bíblia traduzida por João Ferreira de Almeida, e outras vezes usaremos a Bíblia A Mensagem traduzida por Eugene H. Peterson. Optamos assim, pois dependendo da ocasião, uma faz-se mais fluente e acessível que a outra, ou simplesmente porque aquilo que queríamos dizer estava mais claro em uma do que na outra versão.
[2] A igreja latina compreendia salvação como vida depois da morte corpórea, porém a igreja oriental compreendia salvação no sentido de saúde e integralidade do ser humano. E é este o sentido que utilizamos aqui: salvação como saúde e inteireza do homem.